terça-feira, 16 de novembro de 2010

Ausência

  
          
          Eu deixei que morra em mim o desejo
de amar os teusolhos que são doces
Porquenada te poderei dar senão a mágoa de me veres
eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz
e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe teugesto e em
minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria
terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos
desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra
amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do
passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás
para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque
eu fui o grande íntimo  da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi
a tua fala amorosa.
Porque meus dedosenlaçaram os dedos da névoa
suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu
abandono desordenado.
eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque
poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves
das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.

VINICIUS DE MORAES

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